“NÃO, VACINA NÃO É TUDO IGUAL!”

Coluna por Dr. Gustavo Carbonari

Muito se tem ouvido falar sobre vacinas, nestes últimos tempos, mas você sabe realmente como elas funcionam?

As vacinas são agentes imunizadores usados na prevenção de uma série de doenças. São produzidas utilizando-se o próprio organismo causador da doença ou seus derivados, que serão responsáveis por desencadear em nosso corpo uma resposta imunológica. Ao receber a vacina, nosso corpo inicia a produção de anticorpos, e, graças à nossa memória imunológica, quando tivermos contato novamente com o agente causador da doença, nossos anticorpos serão produzidos rapidamente, evitando, desse modo, que fiquemos doentes. Para que isso ocorra, no entanto, devemos respeitar o prazo de idade para a aplicação das vacinas, assim como o intervalo entre as doses.

Não preciso nem dizer o quanto vacinar o seu filhote é essencial, né?

Bem, então vamos lá:

Será que a vacinas dadas na rede pública são iguais às dadas na rede privada? A resposta é não. Existem diferenças importantes que você deve saber. Além disso, há vacinas que são indicadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e de Imunizações (SBIm) que não são fornecidas pelo sistema público, ou apresentam diferenças de qualidade em relação às disponíveis nas clínicas privadas, vejamos:

  1. VACINA CONTRA ROTAVÍRUS:

A diferença é quantitativa: a vacina disponível na rede pública tem apenas um tipo de rotavírus, contra cinco na versão comercializada (ROTATEQ™), que é mais completa, e protege mais.

  1. VACINAS PENTAVALENTE E PÓLIO INJETÁVEL

Nesse caso, a diferença não é na quantidade, mas no tipo de componentes. Na versão de células inteiras (oferecida pelo SUS), há um componente da bactéria da coqueluche que provoca reações frequentes e muitas vezes graves. Na versão acelular (INFANRIX™) , oferecida pela rede privada, esse componente é retirado, e raramente ocorrem reações, geralmente leves. Além disso, a versão acelular já tem a vacina contra pólio incluída, isso é, tudo na mesma aplicação. No caso da versão de células inteiras, a vacina contra poliomielite é feita à parte — ou seja, outra injeção.

Concluindo: a vacina acelular, além de mais segura, também é mais cômoda.

  1. VACINA PNEUMOCÓCICA

As vacinas pneumocócicas protegem  principalmente contra as formas mais graves de infecções por essas bactérias (septicemia e meningites pneumocócicas). Nesse caso, quanto mais tipos de pneumococos incluídos na vacina, melhor.

Aqui a diferença novamente é na quantidade de componentes— e no número de doses. A pneumocócica da rede pública tem apenas 10 tipos de pneumococos, enquanto a da rede privada (PREVENAR-13) tem 13, ou seja, protege mais. Além disso, o SUS só aplica a vacina aos 02, 04 e 12 meses, enquanto a OMS, SBP e SBIm recomendam uma dose adicional aos 06 meses de idade. O SUS, ainda, só aplica a vacina até os dois anos de idade – e na rede privada não há essa limitação.

Veja só: 50% dos casos de meningite pneumocócica que ocorrem hoje, são causados pelos 3 tipos de pneumococos que as vacinas do SUS não cobre! Sim, isso poderia ser evitado se todos tivessem acesso.

Mais uma coisa: mesmo quem já tomou a vacina do SUS pode tomar também essa vacina mais completa. E ficar mais protegido.

  1. VACINA MENINGOCÓCICA

Assim como os vírus das hepatites ou da gripe são designados por letras, os meningococos também o são: A, B, C, etc, dependendo de sua composição, e não pela gravidade da doença que provoquem.  Não existe meningite branda, e a vacina contra um tipo não imuniza contra o outro.  E, lembrando: mesmo quem já teve meningite não fica imune — só a vacina confere imunidade.

Apesar de ser uma doença perigosíssima, que pode trazer graves sequelas e pode ser letal, na rede pública está apenas disponível a vacina contra o meningococo tipo C (18% dos casos de meningite meningocócica). Mas já existem vacinas contra  os outros tipos: A, B,W e Y

Vacina meningocócica ACWY – conjugada – MENVEO™ ou NIMENRIX™, que cobrem os meningococos responsáveis por 82% dos casos de meningite meningocócica pelos meningococos A, W e Y e infelizmente não é fornecida pelo governo:

Meningite do tipo B – BEXSERO™, que também traz grandes sequelas e também pode ser letal e 70% de todos os casos de meningite (tanto pneumocócica quanto meningocócica) são causados por ele e ainda assim não está no calendário do governo!

Por isso, aconselho os meus pacientes a tomarem todas essas acima, apesar de só estarem disponíveis em clínicas privadas, pois são indicadas pela OMS, SBP e SBIm. São recomendadas a partir dos três meses de vida, apenas o número de doses varia. Não há limite superior de idade. Novamente, mais é melhor.

  1. VACINA CONTRA VARICELA

Pra quem acha que catapora é uma doença branda, a maior prova em contrário é que o SUS se preocupa com ela, e são necessárias duas doses para uma imunização plena. O SUS fornece as duas doses de vacina, a primeira aos 15 meses (junto com a vacina triviral) e a segunda somente aos 4 anos de idade. E, nesse meio tempo, muitas crianças desenvolvem a doença, antes da segunda dose.

O esquema sugerido pela OMS, SBP e SBIm é diferente, e protege definitivamente desde cedo:  a primeira dose aos 12 e a segunda aos 15 meses. Mas você pode iniciar a proteção de seu filho ainda mais cedo, aos nove meses: existe, na rede privada, uma vacina que já imuniza a partir dessa idade. E, lembrando: varicela / catapora é mais frequente na primavera e verão.

Quem nunca teve varicela ou nunca foi vacinado pode iniciar sua proteção em qualquer idade. E deve: quanto maior a idade, maior a gravidade da doença.

  1. VACINA CONTRA HEPATITE A

A vacina disponível na rede pública é igual à da privada. Mas o SUS só aplica 01 dose da vacina, e a OMS, SBP E SBIm indicam um reforço após 6 meses. E outra coisa: o SUS só iniciou essa vacina em julho de 2014. Vale a pena conferir a carteira de vacinação se seu filho nasceu antes disso.

  1. VACINA CONTRA HPV

A HPV (humano papiloma vírus) é uma doença sexualmente transmissível, que pode causar câncer de colo de útero, vulva e pênis A vacina fornecida pelo Governo contempla meninas e meninos de 9 a 15 anos. Esta vacina é a quadrivalente, que confere proteção contra quatro subtipos do vírus HPV (6, 11, 16 e 18), com 98% de eficácia, porém, com apenas duas doses. Já rede privada, o esquema vacinal segue a bula, de três doses, e não duas como no SUS e também é possível vacinar dos 9 aos 26 anos.

Lembrando que a eficácia da vacina é melhor quando aplicada na faixa dos 9 aos 15 anos incompletos de idade. Os estudos mostram que quanto antes, melhor.

  1. VACINA DA GRIPE (INFLUENZA)

Na rede pública, a vacina administrada é a trivalente, que tem duas cepas de influenza A, a H1N1 e a H3N2, e uma linhagem de influenza B, a Victoria.  Na rede privada, se dá a tetravalente, que tem uma linhagem adicional do tipo B: a Yamagata

Não esqueça que os adolescentes e adultos também precisam receber essas vacinas, se nunca foram vacinados, ou fazer doses periódicas de reforço. Afinal, a idade não imuniza as pessoas, só as vacinas o fazem — ou as doenças. E vale o velho dito popular: doenças de crianças em adultos são sempre mais grave!

Um abraço,

Dr Gustavo Carbonari

Pediatra CRM 142552